Famílias não poupam e empresas devem mais
23 Maio 2007
Os portugueses deixaram de poupar e as empresas nacionais estão cada vez mais endividadas. Em média cada português amealhou 260 euros durante o ano passado, o que contrasta com os cerca de 490 euros poupados per capita em 2005. São os efeitos da perda de poder de compra, das amortizações e aumentos dos juro dos empréstimos bancários destinados à habitação e consumo.
Vamos a contas com base nos dados do Banco de Portugal. As famílias pouparam apenas 2,6 mil milhões de euros em 2006, quando no anterior o total amealhado atingiu quase o dobro, 4,9 mil milhões de euros. Com poucas reservas financeiras, os portugueses optaram por reduzir o investimento em Bolsa, privilegiando os depósitos a prazo na banca. “Jogaram” pelo seguro, tentando aproveitar o facto de as taxas de juro passivas (que remuneram os depósitos a prazo) estarem ligeiramente acima da inflação.
O que aconteceu em 2006 para as poupanças das famílias portuguesas caírem para metade em apenas um ano? Os economistas fornecem várias pistas. O desemprego está a aumentar e os salários públicos e privados estão a ser comidos pela inflação. Números recentes da Comissão Europeia – previsões da Primavera – indicavam que o poder de compra dos portugueses caiu 0,5% em 2006.
A subida das taxas de juro, em curso desde finais de 2005, está a sobrecarregar os orçamentos domésticos. Entre o primeiro e o último mês do ano passado, a factura com os juros mensais do crédito à habitação aumentou mais de 20,5%. Os custos com os empréstimos ao consumo – incluindo cartões de crédito – também subiram, diminuindo a capacidade do pé-de-meia dos portugueses.
Empresas com mais dívidas
Os empresários e gestores em Portugal nunca acumularam tantas dívidas como em 2006. Pelos números da OCDE as firmas nacionais já ostentavam, desde 2004, o título das mais endividadas do mundo, o que está a dificultar a retoma da economia. Ontem, o Banco de Portugal calculou que os compromissos acumulados das empresas nacionais para com terceiros – à banca, sócios, fornecedores – deverão a ascender a mais de 200 mil milhões de euros, cerca de 134% do PIB.
Em 2006, as firmas agravaram o passivo para com a banca, accionistas e devedores. Pelas cifras do banco central, as necessidades de financiamento das sociedades atingiram os 9,9 mil milhões de euros, cerca de 6,4% da riqueza gerada pela economia (PIB). Bem acima das necessidades financeiras de 2005, calculadas em 5% do PIB. Sem poupanças nacionais – em depósitos a prazo ou à ordem – a banca nacional é forçada a contratar dinheiro junto das congéneres estrangeiras para satisfazer o apetite pelo crédito interno. Resultado, em juros pagos à banca estrangeira, os portugueses tiveram de desembolsar mais de 4,1 mil milhões de euros no primeiro trimestre do ano, originando um agravamento de 32% na balança de rendimentos.
RUDOLFO REBÊLO
ARQUIVO DN-JOSÉ CARLOS CARVALHO (imagem)

